quarta-feira, 3 de julho de 2013

Que dia!

Dia 2 de Junho de 2013, eu a caminho de Lisboa, a caminho da antestreia de Post Tenebras Lux, o último filme do realizador mexicano Carlos Reygadas.
A viagem para Lisboa, a TSF sintonizada e o primeiro-ministro a comunicar ao país que não se demite nem aceita a (irrevogável) demissão do Portas.
Na sala de cinema, a estranheza da escuridão da luz de Post Tenebras Lux; só ficou o silêncio para me reconfortar.
De regresso a casa, a notícia de que a minha mãe estava no hospital.  E amanhã (hoje) o meu dia de anos.

PS. Com a minha mãe está tudo bem, foi só o susto.

terça-feira, 28 de maio de 2013

House of Mirrors

Mundos de Hector Zazou. 
House of Mirrors foi o último álbum legado-nos pelo compositor de todas as latitudes. Depois Zazou partiu.

terça-feira, 21 de maio de 2013

No "estrutural" é que está o ganho!

O estrutural anda na boca do mundo. É grelha de leitura da realidade e receita para o nosso presente de crise.
Se há desemprego, é porque temos um problema estrutural. Se não crescemos, é porque teimamos em não fazer as "reformas estruturais", a nossa poção mágica, dizem-nos  hordas de comentadores e de especialistas.

Expressões tais como "desemprego estrutural" ou "reformas estruturais" são o fetiche do nosso tempo.  Um tempo de falência e  depressão.
Melhor, talvez,deixar de escutar os doutores em finança e economia e voltar aos livros do Asterix. 

PS. Oculta no fetiche, jaz a ideologia: desempregados? Não passam de reformas estruturais; desvalorização interna (em novilíngua, baixa dos salários) e privatizações? Eis a quinta-essência das reformas estruturais! Sem elas, somos só preguiça e ineficiência.

Le Fond de L'Air Est Rouge

O Couraçado Potemkine, de Serguei, Eisenstein, dá o mote a este olhar sobre o desejo de revolução: no ecrã, o grande plano de um marinheiro, depois, em letras garrafais, o apelo "Irmão!". É um pretexto para uma viagem ao coração dos movimentos que corporizavam a revolta nas décadas de 60 e 70.

Recorrendo a imagens documentais de proveniências várias, cujo sentido é ampliado pela força da montagem, Chris Marker oferece-nos um fresco sobre os movimentos de contestação, na Europa e nos Estados Unidos, e as guerrilhas e revolucionários da América Latina. Com o Che e o Vietname em pano de fundo, sem esquecer a Checoslováquia, devolve-nos toda a fragilidade desse tempo de esperança. As contradições como uma torrente, o sectarismo à flor-da-pele, está lá tudo. Os ideais e o voluntarismo desses que queriam a revolução dentro da revolução
O móbil de Marker foi "a nova esquerda" que então emergiu para preencher o vazio entre "a ordem da polícia" e "a ordem da CGT" (a central sindical tutelada pelo Partido Comunista Francês).
Para os que tiverem interesse, está no You Tube. Em duas partes, "Les Mains Frágiles" e "Les Mains Coupées.
Vão ficar a saber por que é que os gatos nunca estão do lado do poder.




quarta-feira, 27 de março de 2013

Estórias da Resistência


Uma heroína da BD. Francesa e de esquerda, a combater a ocupação alemã.
Da obra de Gibrat, O Voo do Corvo. 

Chipre e a lei do mais forte.

Muda-se o ser, muda-se a confiança. E Chipre passou de modelo deste nosso capitalismo globalizado, hábil actor na contenda pela atracção dos capitais financeiros, a lavandaria da Europa.  A lavandaria do dinheiro sujo que vem do Leste, da Rússia de Putin.
Os arautos do capitalismo globalizado sem freios exaltavam este mundo feito de livre-concorrência, única medida do universo. 
Impunha-se saber atrair estes fluxos financeiros, pouco importando de onde provinham, porque, afinal de contas, dinheiro é dinheiro e escrúpulos não são para aqui chamados; a não ser enquanto expressão de atraso e imobilismo, afinal de contas, eles, os neoliberais, são amorais por excelência.
Com a crise, o dinheiro voltou a ser um bem escasso, tal é sentido com particular agudeza na nossa Europa, onde a competição se tornou brutal. E o pequeno Chipre, a braços com bancos afogados em títulos da dívida pública grega entretanto reestruturada, viu ser-lhe quebrada a espinha dorsal do seu sistema financeiro e, já agora, da sua economia. Não houve contemplações por parte da Europa, melhor dizendo, da Alemanha. Como o predador que se abate sobre a presa já debilitada, dando-lhe o golpe de misericórdia.
É um sinal dado aos investidores: ter o dinheiro na periferia comporta riscos avultados, depósitos e  poupanças poderão ser alvo de um qualquer confisco. Melhor é mesmo conservar o dinheiro no seio dessas economias que formam o core business da União Europeia. Como a Alemanha. É a lei do mais forte, é assim o darwinismo social das nações.

PS. Pelos vistos, só há dinheiro sujo e oligarcas russos em Chipre. Nada disso em Londres, onde se passeiam tranquilamente criaturas como Roman Abramovitch. Ou onde encontraram exílio figuras da estirpe de um Boris Berezovski. Moral da história, há oligarcas bons e oligarcas maus. Russos no Chipre é logo de desconfiar.
 
PS2. Há paraísos ficais maus e paraísos fiscais bons. Luxemburgo e Letónia são para acarinhar; Chipre é para abater. Mesmo que, em matéria de transparência, a pequena ilha do Mediterrâneo peça meças aos outros. E até à Alemanha.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Louçã e o Manifesto



Vem tudo isto a propósito do comentário de Francisco Louçã, na SIC Notícias, e de um manifesto por mudanças de fundo num sistema político cristalizado.
O antigo coordenador do Bloco de Esquerda entregou-se a um exercício de desclassificação dos subscritores daquele manifesto, uma técnica clássica quando o que se pretende é evitar a discussão substantiva das propostas. Os seus autores não seriam pois dignos de crédito; uns porque oriundos do Estado Novo, outros porque foram expressão do omnipresente bloco central.
E o tom foi este, as propostas a merecerem-lhe apenas breves considerações de olímpico desprezo. Listas de independentes à Assembleia da República? Em teoria até sim, mas cuidado com esses independentes trânsfugas, presas fáceis de uma qualquer máfia. Círculos uninominais? Seriam o Cavalo-de-Tróia do caciquismo e demais práticas de cooptação do deputado, que se quer acima de tudo em reverência ao chefe partidário. Primárias nos partidos? Aqui-d’el-rei que vêm aí os acólitos do Menezes votar em força nas eleições do CDS! Referendo? Mas que ignorância a dos autores do manifesto, que não sabem que a Constituição não permite tais veleidades! E na sacrossanta Constituição da República não se toca.
Nada de novo. Louçã é um homem da esquerda portuguesa, cujo pensamento ideológico foi moldado pelas práticas políticas dos anos 70. E aí, o partido, por minúsculo que fosse, era tudo.
Salazar dizia-nos que não estávamos preparados para a democracia e que os comunistas acabariam por tomar conta de tudo. Louçã diz-nos que não estamos preparados para exercer a democracia fora das baias dos partidos. Ou não fosse um dirigente partidário com muitos anos disto.
Nos vários domínios da existência, não raro sou prisioneiro de ilusões. E o Bloco de Esquerda foi uma delas. Sentia-o mais movimento e menos partido. Que ia no sentido de uma cada vez maior abertura à sociedade. Era esse o olhar da minha condição de simpatizante da causa.
A realidade mostrou-me algo de muito diferente: hoje o BE é um partido cada vez mais fechado sobre si mesmo. Em torno de um aparelho risível formado pelas sobras da UDP e do PSR. Percebe-se porquê.
Os pais fundadores da nossa Constituição de Abril decidiram tudo depositar nos partidos. Deram-lhes o monopólio da democracia, pouco ou nada sobrando para os cidadãos. E Louçã gosta das coisas assim.
PS. Não interpretem isto como um apelo à extinção dos partidos, apenas sinto que estes são cada vez mais incapazes de produzir lideranças e quadros capazes para fazer face ao tempo da crise. Sim, não há democracia sem partidos. Mas a democracia também precisas de outras coisas mais.