terça-feira, 13 de novembro de 2012

A doce perfeição e a queda

Acreditamos em soluções perfeitas para os problemas que nos afligem, eis o nosso logro. Reféns da ideia de perfeição, lançamos o anátema sobre as restantes alternativas e a discussão acaba em mero simulacro.
Resultado de tal atitude é  assistirmos, paralisados, à nossa própria queda. Retrato de um país cada vez mais submerso numa crise sem fim à vista. Com um primeiro-ministro obstinadamente agarrado à ideia de que temos de honrar os nossos compromissos custe o que custar; e nos termos de um memorando que a realidade depressa se encarregou de tornar caduco.
Pagar tudo e não nada renegociar  é o dever ser contra o ser. Mas o que tem que ser tem muita força. E o ser é o fardo da dívida tornada ingerível pela queda do PIB. O tempo deveria ser, pois, o da discussão das outras alternativas. Das imperfeitas, que comportam custos e riscos. Mas não: continuaremos deliciosamente aprisionados pelo feitiço da perfeição. Até que a realidade nos bata à porta.


PS. Em Pedro Passos Coelho e Angela Merkel, o mesmo retrato de um país cumpridor e no bom caminho. Nada urge pois alterar. Mas o que em Pedro é crença, é ,em Angela, mero cálculo político, que as eleições estão já ao virar da esquina. E nada como a imagem da chanceler ladeada por dois belos canhões prussianos, no não menos belo  Forte de São Julião da Barra.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vitória de Obama

Foi uma dura batalha esta eleição presidencial, com a vitória de Barack Hussein Obama a ser obtida por escassa margem. Nos Estados decisivos, que há muito são o fiel da balança em eleições presidenciais, casos do Ohio ou da Virgínia, somente dois a três pontos percentuais separaram o vencedor do candidato derrotado. E Barack Obama venceu todas estas batalhas (só a Flórida aguarda ainda o veredicto). Resultado, vantagem clara no número de grandes eleitores e a maioria do voto popular (não é de somenos sublinhar este facto, não obstante se tratar de uma eleição indirecta em que o colégio eleitoral designa o Presidente).
Obama desiludiu muitos nestes quatro anos do primeiro mandato. Muitos esperavam tanto desta presidência, mas as circunstâncias eram assaz adversas. Diríamos, terríveis, pois estávamos, e ainda estamos, no meio da pior crise económica desde a Grande Depressão dos anos trinta. Mas imaginem o que poderiam ter sido esses anos com um presidente republicano? Os efeitos da crise, acreditem, teriam sido ainda mais devastadores, não fora a acção do presidente agora reeleito. Exemplos? Sem a política de estímulos económicos à indústria, em particular à automóvel, o desemprego teria sido certamente maior. Obama recusou a austeridade ancorada em ortodoxias infelizmente tão em voga na Europa, e orientou-se para o crescimento e o emprego.
Mais importante, conseguiu aprovar, apesar da dura oposição dos republicanos, a reforma da saúde, passo decisivo rumo a um sistema de cobertura universal. E não hesitou em apoiar os movimentos da Primavera Árabe.
Fosse Barack Obama um político cinzento desses que povoam as nossas televisões, e teria sido arrastado na tormenta económica. Não há memória, desde Franklin D. Roosevelt, de um presidente ter sido reeleito havendo tantos americanos desempregados. É um feito que não está ao alcance de muitos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

D’ Est



No dealbar dos anos 90, a cineasta belga Chantal Akerman fez-se à estrada rumo ao Leste, a essa terra de utopias soçobradas. A Perestroika tinha então possibilitado a realização de um projecto há muito adiado, o de filmar o quotidiano das sociedades do Leste.
Perpassam fugazes imagens da Alemanha Oriental e da Polónia, depois paramos na União Soviética, ou talvez na Mãe Rússia; na verdade, estas imagens bem podem pertencer ao tempo em que ainda havia União Soviética (Akerman filmou entre 1990 e 93), não sabemos o que é de antes e o que é de depois.
D’ Est é uma experiência sensorial do espaço e do tempo, deixamo-nos impregnar pela força das imagens e somos transportados para outra realidade. Congelada no tempo, no tempo do Socialismo Real.
Akerman filma admiravelmente esse quotidiano, pessoas que passam, rostos esfíngicos que esperam pacientemente e, a mais das vezes, indiferentes à câmara (a discrição da câmara é um dos trunfos deste documentário feito estranheza). Há uma grande dignidade no olhar destas pessoas que esperam em longas filas. A cineasta espreita também o espaço íntimo do lar: a cozinha, e nela uma mulher a cortar o pão; a sala de estar onde uma outra mulher põe um vinil num velho gira-discos. O disco salta, cheio daquele ruído familiar do vinil cuja faixa foi tocada vezes sem conta. Emerge uma comovente balada russa.
D’ Est traz-nos imagens quase só da noite, do Inverno, talvez por isso noite. E isso confere-lhe uma dimensão crepuscular.  Akerman filma o crepúsculo da Utopia.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Grécia que eles odeiam

À violência de um governo ilegítimo junta-se a corte ignara dos comentaristas que nos dizem que não há alternativa à austeridade a não ser a Grécia.
Não sei o que mais me revolta, se a falta de pudor com que um governo se lança sobre os rendimentos de quem trabalha e dos pensionistas, fazendo o contrário do que pregou na campanha eleitoral, se a indigência dos comentários sobre um país transformado em bode expiatório da crise do euro. E a cujos cidadãos se pode impor uma receita económica feita à base de dor e sofrimento. Essas luminárias falam da Grécia com desprezo. Com o desprezo próprio dos ignorantes.  
No fundo, eles agitam o espectro da Grécia contra nós. Querem-nos assim obedientes, em humilde reverência do discurso do especialista. Não gostam do ruído do mundo, da cidadania e da democracia. Afinal, esta é a impureza que ameaça fazer ruir o imaculado conhecimento tecnocrático.
A Grécia é o escrutínio dos governos. É a rua. É as greves. É o Syriza. É Exarquia. É a política! E eles, no seu mundo asséptico das televisões, odeiam tudo isso.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Lobo e o Cordeiro. Da opressão e da inocência

 Ao mesmo rio vieram, compelidos pela sede, o lobo e o cordeiro.

O lobo estava mais acima e o cordeiro bem mais abaixo. Então o predador, incitado por sua goela maldosa, encontrou motivo de rixa: “Estou a beber e tu poluis a água!”.

O lanoso, tímido, responde:
“Como posso fazer isso de que te queixas, ó lobo? De ti para a minha garganta é que o liquido corre”.

Repelido pela força da verdade, ele replicou:
“Cerca de seis meses atrás, falaste mal de mim”.

O cordeiro retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido…”.
- Por Hércules!, teu pai é que me destratou!

Em seguida, dilacera a presa, dando-lhe morte injusta.
 
Escrevi esta fábula por causa daqueles indivíduos que oprimem os inocentes por razões fictícias.

Fedro

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Dentro de nós

Dentro de nós, as coisas aparecem como pontos de luz no fundo de nevoeiro e sombra. A nossa realidade concreta possui uma qualidade abstracta fantasmagórica.
M. Antonioni