Grécia, Agosto de 2011.
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Clarice Lispector
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Os motins de Inglaterra por Zygmunt Bauman
A sociedade de consumo não eliminou a privação, apenas tornou esta mais rica e variada.
Eis alguns excertos do artigo de Zygmunt:
All varieties of social inequality derive from the division between the haves and the have-nots, as Miguel Cervantes de Saavedra noted already half a millennium ago. But in different times having or not having of different objects is, respectively, the states most passionately desired and most passionately resented. Two centuries ago in Europe, a few decades ago still in many some distant from Europe places, and to this day in some battlegrounds of tribal wars or playgrounds of dictatorships, the prime object setting the have-nots and the haves in conflict was bread or rice. Thank God, science, technology and certain reasonable political expedients this is no longer the case. Which does not mean though that the old division is dead and buried. Quite on the contrary… The objects of desire, whose absence is most violently resented, are nowadays many and varied – and their numbers, as well as the temptation to have them, grow by the day. And so grows the wrath, humiliation, spite and grudge aroused by not having them – as well as the urge to destroy what have you can’t. Looting shops and setting them on fire derive from the same impulsion and gratify the same longing.
We are all consumers now, consumers first and foremost, consumers by right and by duty. The day after the 11/9 outrage George W. Bush, when calling Americans to get over the trauma and go back to normal, found no better words than “go back shopping”. It is the level of our shopping activity and the ease with which we dispose of one object of consumption in order to replace it with a “new and improved” one which serves us as the prime measure of our social standing and the score in the life-success competition. To all problems we encounter on the road away from trouble and towards satisfaction we seek solutions in shops.
[...]
For defective consumers, those contemporary have-nots, non-shopping is the jarring and festering stigma of a life un-fulfilled – and of own nonentity and good-for-nothingness. Not just the absence of pleasure: absence of human dignity. Of life meaning. Ultimately, of humanity and any other ground for self-respect and respect of the others around.
Zygmun Bauman
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Motins na Velha Albion
Enfim, um conjunto de regras de bom-senso, indissociáveis do que é ser inglês. Tudo isso começa a ser questionado à luz dos motins que assolam a Velha Albion.
Os discursos sobre tais manifestações de barbárie não escapam à vulgata: a esquerda fala no desemprego e nas desigualdades causadoras de ressentimento; a direita acena com o (amoral) Estado social e a desresponsabilização ou dissolução da família.
Talvez fosse útil distanciarmo-nos do tempo breve do acontecimento. Se a Inglaterra é civismo e bom-senso, não é menos lugar de subculturas juvenis que não raro abraçam a embriaguez da violência. Não é difícil encontrarmos exemplos disso no passado recente. Talvez estes protestos ultrapassem, pela sua magnitude e brutalidade, outras manifestações de barbárie. O que mais assusta, é não vermos neles sombra de reivindicação social ou política. Apenas a incomunicabilidade da destruição.
Encontramos as raízes desta violência noutras sociedades também. Vivemos submetidos ao consumo desenfreado, em que o princípio do desejo é juiz supremo. E o desejo sem mais nada é uma poderosa força de destruição.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Animal Collective no CCB

Desta vez, houve o complemento visual, mas nada que esta música impregnada de caos já não contivesse, de tão imagética que é.
A música fluiu como uma torrente ao longo de perto de uma hora e meia e, nela, vinham algumas das canções de álbuns idos, reconhecíveis mas viradas do avesso. São assim os concertos dos Animal Collective.
Saímos, uma vez mais, tonificados por esta música, mas guardamos fundo na memória o concerto do Ginjal.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Vasily Grossman, Vida e Destino
Vasily Grossman foi um célebre cronista da Grande Guerra Patriótica (assim chamam os russos à II Guerra Mundial) no jornal Estrela Vermelha, órgão oficial do Exército Vermelho.Essa experiência do teatro de guerra forjou o romance Vida e Destino, um épico que toma como cenário a Batalha de Estalinegrado. Vida e Destino é um fresco dessa época trágica. É uma anatomia da sociedade estalinista, exposta em toda a sua crueldade e absurdo.
Vasily Grossman foi vítima de opróbrio quando o seu livro viu, ainda que fugazmente, a luz do dia, nesses idos anos sessenta: mesmo em pleno degelo Krutcheviano, as estórias de Grossman eram insuportáveis para o regime. O manuscrito e as notas de Vida e Destino foram apreendidos pelo KGB. E o mesmo destino tiveram as fitas e o químico da máquina de escrever do escritor. Prova de que um romance pode fazer tremer um regime todo-poderoso. Prova da força do pensamento, capaz de escapar às lógicas concentracionárias.
Vida e Destino sobreviveu: chegou ao Ocidente oculto num micro-filme. País da publicação do romance, a Suíça, em 1980.
É difícil, Vitia, compreender realmente os homens... os alemães entraram na cidade no dia 7 de Julho. No parque da cidade, a rádio transmitia as últimas informações; eu vinha da policlínica depois das consultas e parei para escutar, a locutora lia em ucraniano um artigo sobre os últimos combates. Ouvi detonações afastadas, depois alguns homens atravessaram o parque a correr, retomei o caminho de casa perguntando-me como é que não ouvira as sirenes de alerta aéreo. De repente, vi um tanque e uma voz gritou: «os alemães passaram».
[...]
Adormeci de manhãzinha e, quando acordei, senti uma horrível tristeza. Estava no meu quarto, na minha cama, e contudo sentia-me em terra estranha, esquecida, solitária.
Nessa mesma manhã lembraram-me o que tivera tempo de esquecer durante os anos do poder soviético: era judia. Os alemães passavam em camiões e gritavam: «Judeen Kaputt!».
E depois também os vizinhos me lembraram. A mulher do guarda, que estava debaixo da minha janela, dizia a uma vizinha: «Graças a Deus, vamos ver-nos livre destes judeus todos.» Donde virá isto tudo? O filho dela é casado com uma judia e a velha estava em casa do filho; depois falava-me dos netos.
A minha vizinha do prédio, que é viúva, tem uma filha com 6 anos, Alionuchka, uns esplêndidos olhos azuis, já te falei nela numa das cartas, e essa vizinha entrou no meu quarto e disse-me:« Anna Semionovna, peço-lhe que retire as suas coisas do quarto antes do anoitecer, porque eu vou instalar-me lá.»
- Muito bem, nesse caso, eu instalo-me no seu – respondi-lhe eu.
- Não, não, você vai é para a despensa.
[...]
Muitas pessoas espantaram-me. E não foram só criaturas incultas, azedas e limitadas. Por exemplo, um professor reformado, de 75 anos de idade, pergunta-me sempre por ti, e dizia-me de ti: «É o nosso orgulho». Naqueles dias malditos afastou-se de mim na rua e não me cumprimentou. Depois contaram-me que tinha declarado numa reunião do kommandantur:«o ar está mais pura, já não cheira a alho».
In Vida e Destino.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
A Moody's do nosso descontentamento
Ora vejamos: não foi o governo de Passos Coelho que anunciou um imposto extraordinário para tapar um buraco, diríamos também, extraordinário? Não disse o nosso eminente ministro das finanças (mais uma mente brilhante saída da economia, essa ciência de pés-de-barro tão incensada no mundo de hoje) que a extensão do buraco nas contas públicas o havia surpreendido? Não admira, pois, a reacção (que de certo não é inocente) da Moody's.
Nem pode a aludida agência pode ser acusada de ignorância acerca da realidade política e cultural prevalecente neste país outrora de vocação marítima. Ao manifestar o seu cepticismo sobre a capacidade de o governo cumprir as metas do memorando, no que à saúde, empresas públicas e autarquias se refere, limitou-se a pôr o dedo na ferida: como poderá o PSD, partido clientelar do regime e de maior expressão nas autarquias, levar por diante a supressão de municípios e freguesias? Ou a extinção de 15% dos cargos dirigentes no universo da administração pública? Perante tal histórico, duvidar é um acto da mais elementar racionalidade.
Junte-se, a tudo isto que é nosso, a reestruturação encapotada actualmente em curso na Grécia, sob a capa de um segundo resgate feito austeridade sobre as vidas dos gregos, alvo de uma espécie de punição colectiva. Depois, os juros a que estamos sujeitos num cenário de crescimento anémico ou negativo. Perfila-se assim como provável um horizonte próximo algures entre o segundo resgate e uma reestruturação da dívida. A não ser que a Europa...