segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O amor é um Prémio sem Mérito

O Amor é um Prémio sem Mérito.O amor é, por definição, um prémio sem mérito. Se uma mulher me diz: eu amo-te porque tu és inteligente, porque és uma pessoa decente, porque me dás presentes, porque não andas atrás de outras mulheres, porque sabes cozinhar, então eu fico desapontado. É muito melhor ouvir: eu sou louca por ti embora nem sejas inteligente nem uma pessoa decente, embora sejas um mentiroso, um egoísta e um canalha.

Milan Kundera, in "A Lentidão"

Bárbara


Fui ver Bárbara, filme de uma rara sensibilidade nos dias que correm. Conciso nos diálogos, mas carregado de sentido.
História de uma médica de Berlim-leste exilada no seu próprio país; numa remota povoação das margens do Báltico.
A beleza, por vezes agreste, da paisagem contrasta com a atmosfera social, que é sufocante, culpa da crueldade e perversão de um regime insano, o da antiga RDA. Mas a humanidade das personagens, a cumplicidade que se entretece para além dos papéis sociais, é tocante. E é uma forma de resistência. É nos interstícios do poder que jaz a possibilidade da utopia. No plano micro das relações humanas que escapam às lógicas do poder.
Mas não há sombra de maniqueísmo neste filme que abraça a complexidade das coisas. E fá-lo de uma forma simples, por meio de uma eficaz narrativa.
Excelente a interpretação de Nina Hoss (uma grande actriz!). E que fotografia tão sedutora, que cores! Está de volta o bom cinema alemão

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

FMI e privilegiados

O país foi acometido de um súbito estado de euforia com o (épico) regresso aos mercados. 
Comunicação social e demais especialistas do governo já profetizam o fim da crise ao virar da próxima esquina.
Parece esquecido o famigerado relatório do FMI, cujos peritos preconizam mais umas quantas dezenas de milhares de despedimentos, num país onde o desemprego teima em escapar às previsões dos tais especialistas que sabem qualquer cousa de uma cousa e nada de todas as coisas, como dizia o poeta.
No dizer dos especialistas das médias, medianas e pesos do PIB, um médico ou um professor são profissões a cuja situação de privilégio importa pôr cobro. Compreende-se que, no aconchego dos gabinetes climatizados, seja difícil entrever a vida de um professor obrigado a carregar a casa às costas ano após ano, rumo à escola onde foi colocado pelo omnipresente Ministério da Educação. O mesmo ministério que afoga os professores em burocracias, sobrando pouco tempo para a nobre tarefa de preparação das aulas. Não é caso para menos: a realidade assume tons bem mais agradáveis, quando vista pelas cores garridas ou curvas voluptuosas dos gráficos de excel.
Estes especialistas são  remunerados a peso de ouro, ao contrário do professor que ensina; ou do médico que trata os doentes. Mas, na narrativa que todos os dias entra pelas nossa casas adentro, são estes últimos os privilegiados. É assim o nosso mundo às avessas.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Para onde vais, Esquerda?

À esquerda, os tempos foram marcados por uma convenção e um congresso. Em ambos, os mesmos rituais de auto-satisfação. Diríamos que os militantes, de uma e outra formação, estão a viver no melhor dos mundos. Apesar da crise. Ou, melhor, por causa desta. Porque da crise esperam votos de descontentamento e, no fim do caminho, a revolução social. Não é preciso pois mudar, porque no esperar é que está o ganho.

Os da convenção persistiram em ignorar um resultado eleitoral por demais desastroso, refugiando-se na crença da preservação do núcleo original de eleitores, espécie de código genético desta formação política. E assim experimentaram uma liderança bicéfala em pleno olho do furação. Liderança bicéfala proposta pelo coordenador de saída e depressa aclamada pela imensa maioria dos seus militantes, em gesto certamente democrático. A fé de ser Syriza parece bastar-lhes. Doce ilusão.

Os do congresso têm o marxismo-leninismo, e isso basta-lhes em matéria de grelha de leitura da realidade circundante e de teleologia.
Expressão cunhada depois da morte de Lenine, o marxismo-leninismo foi a ideologia que deu forma ao Estado Soviético sob a égide de José Estaline. E hoje, muito tempo depois desses anos trágicos da história da Rússia, e já não havendo União Soviética, continua a ser bússola do Partido Comunista Português. Os seus militantes imaginam-se vanguarda (espelho meu, espelho meu, diz-me lá se há alguém mais revolucionário do que eu?), mas o que vem à tona é só burocracia e funcionalismo. 

Neste admirável mundo novo do PC, a liberdade rima com servidão. E a revolução é permanência imune às mutações do real. Fora das muralhas de aço deste mundo, é só negrume e logro. Traduzindo, há a direita, o PS partido do memorando e o BE de cariz social-democratizante. No meio desta imensidão de irrecuperáveis, o PC sonha encontrar os democratas do Preste João, e com eles formar a santa-aliança que nos guiará a todos rumo ao futuro radioso.

E é para este PC que os da convenção olham não sem fascínio. Gostariam de ser os depositários de tanta pureza e arregimentar assim o mundo sindical e do trabalho. Agora, sempre que discursam, o fundo do palco é vermelho. Longe vão pois os tempos de um BE a várias cores. Culpa da crise financeira, dirão alguns.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A greve e o país do sol nascente

Não estive nas manifestações do dia da greve. O dia foi pontuado com outros afazeres, que não os do trabalho (confesso ter aderido à paralisação). E só de longe espreitei as imagens televisivas da violência em São Bento e  imediações. Da violência dos manifestantes e da polícia. Uma luta desigual, já se sabia, e inconsequente. Mas acabou por dar um tom europeu ao protesto de 14 de Dezembro.
Se das imagens pouco vi, dos comentadores do costume livrei-me de boa porque fui ao cinema, arrastado por uma história do país do sol nascente. Uma história de um clã amaldiçoado, os Nakamoto do beco. Homens de grande beleza, incorrigíveis sedutores, condenados a morrer jovens. Uns às mãos do ciúme, das mulheres ou dos maridos destas. Outros pondo cobro à sua própria vida. Outros ainda vítimas da sua condição social.
Pela tela, as estórias de três Nakamotos. São-nos contadas pela voz da parteira, a anciã da aldeia. Uma aldeia à beira-mar; o horizonte era só o mar a serpentear colinas de densas florestas. Uma forte corrente erótica percorre estas estórias marcadas pelo fatalismo. Marca o ritmo do filme.
A tragédia dos Nakamotos parece ancorada num destino remoto. Talvez no desígnio dos deuses (no início temos a imagem do local sagrado onde  a deusa da floresta deu à luz o fogo).  Essa é uma ilusão que o realizador Koji Wakamatsu se encarrega de desfazer. O filme termina com uma canção que nos fala-nos da proclamação do imperador Meiji, do desejo democrático de abolir  todas a formas de discriminação com origem no nascimento. Mas a discriminação persistiu, e os Nakamotos continuaram  vítimas de um trágico destino social. Morriam cedo, mas muitos mais eram paridos, assim dizia a canção. Porque  se a vida é sofrimento, é também um impulso maior.
Koji Wakamatsu conheceu em vida a pobreza e a discriminação.  O seu cinema é fortemente implicado, imbuído de mensagens políticas e sociais. Por isso, acho que  Koji Wakamatsu rimou com a greve de 14 de Dezembro.