À esquerda, os tempos foram marcados por uma convenção e um congresso.
Em ambos, os mesmos rituais de auto-satisfação. Diríamos que os militantes, de
uma e outra formação, estão a viver no melhor dos mundos. Apesar da crise. Ou,
melhor, por causa desta. Porque da crise esperam votos de descontentamento e,
no fim do caminho, a revolução social. Não é preciso pois mudar, porque no esperar é que
está o ganho.
Os da convenção
persistiram em ignorar um resultado eleitoral por demais desastroso,
refugiando-se na crença da preservação do núcleo original de eleitores, espécie
de código genético desta formação política. E assim experimentaram uma
liderança bicéfala em pleno olho do furação. Liderança bicéfala proposta pelo
coordenador de saída e depressa aclamada pela imensa maioria dos seus
militantes, em gesto certamente democrático. A fé de ser Syriza parece
bastar-lhes. Doce ilusão.
Os do congresso
têm o marxismo-leninismo, e isso basta-lhes em matéria de grelha de
leitura da realidade circundante e de teleologia.
Expressão cunhada depois da morte de Lenine, o
marxismo-leninismo foi a ideologia que deu forma ao Estado Soviético sob a
égide de José Estaline. E hoje, muito tempo depois desses anos trágicos da
história da Rússia, e já não havendo União Soviética, continua a ser bússola do Partido Comunista Português. Os seus militantes
imaginam-se vanguarda (espelho meu, espelho meu, diz-me lá se há alguém mais
revolucionário do que eu?), mas o que vem à tona é só burocracia e
funcionalismo.
Neste admirável mundo novo do PC, a liberdade rima com
servidão. E a revolução é permanência imune às mutações do real. Fora das
muralhas de aço deste mundo, é só negrume e logro. Traduzindo, há a direita, o PS partido do memorando e o BE
de cariz social-democratizante. No meio desta imensidão de irrecuperáveis,
o PC sonha encontrar os democratas do Preste João, e com eles formar a
santa-aliança que nos guiará a todos rumo ao futuro radioso.
E é para este PC que os da convenção olham não sem fascínio. Gostariam de ser os depositários
de tanta pureza e arregimentar assim o mundo sindical e do trabalho. Agora,
sempre que discursam, o fundo do palco é vermelho. Longe vão pois os tempos de
um BE a várias cores. Culpa da crise financeira, dirão alguns.