quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Tristes Tempos

Entretanto... mais austeridade. E outra vez o passado, a incúria dos antecessores, velho alibi de todos os primeiros-ministros, quando se trata de impor medidas não inscritas nos programas eleitorais sufragados pelos eleitores. Sob este prisma, nada de novo. Tudo num quadro de uma comunicação social abúlica e serventuária.

A realidade das contas públicas é uma torrente que escapa ao génio dos nossos ministros, uns vindos do mundo virtual das jotas, outros da academia. Mas a dívida pública é uma realidade de somenos ao pé da dívida privada, com destaque para a dos bancos, essas instituições que pairam acima das demais neste mundo às avessas.


Neste nosso mundo, os estados socorreram a banca e desembocaram na crise das dívidas soberanas. O dinheiro dos contribuintes pode e deve ir, rapidamente e em força, para as instituições financeiras, enquanto a austeridade é ministrada em pesadas doses aos povos. É a banalidade do mal, parafraseando Arendt.

Retratos sombrios

No Guardian, excertos de um trabalho antropológico sobre o mundo da City.
Nele são entrevistados vários quadros do sistema financeiro. Retratos sombrios. De desesperança:

Just this week a colleague of mine was called into the meeting room and … fired. Just like that. He wasn't even given time to pick up his stuff, that was all done for him. He hadn't met his targets. Later we were called into the meeting room and I was told 'Look, you don't need to worry, you're doing fine.' That's the City for you, people are used and discarded like objects.

"I never thought I'd become the person I am now. Back in my country I used to work in a job where I'd help people, actually improve their lives. These days I am cheating, lying, manipulating – all in the name of targets. The crazy thing is, I am good at this. I get bonuses.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A crença no especialista

Aqui há quem fustigue (nunca é demais, verdade se diga) a crença no poder do especialista.
Quando falham os políticos, logo surgem as vozes clamando pelos painéis de especialistas.
Fernando Pessoa não era presa de tais ilusões. Pela voz de Álvaro de Campos, lembrava-nos que "um especialista é um homem que sabe qualquer coisa de uma coisa e nada de todas as coisas."
Mas, lamentavelmente, estamos cada vez mais nas mãos destes especialistas. Apesar das atrocidades cometidas durante o século passado, em nome do progresso técnico personificado pelo poder do especialista, continuamos a persistir na crença. De pouco vale a História.

Eis um excerto do Krugman:

It’s not just the complete failure to foresee this crisis. Fancy international organizations have been persistently offering disastrous advice, counseling austerity and interest rate hikes just as the recovery, such as it is, stumbles. Politicians say dumb things about monetary policy — but so does the ECB.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Não somos a Grécia

Vamos de austeridade em austeridade até à vitória final, assim nos querem fazer crer o governo e demais analistas. A entrevista de Pedro Passos Coelho recolheu os louros do costume na comunicação social do país que inventou essa curiosa expressão do estado de graça.
Tudo estaria bem, não fosse a impenitente Grécia, esse país outrora pátria democracia, que teima em não aplicar o (benigno) programa das privatizações imposto por estrangeiros. Enfim, a Grécia tem costas largas, já o sabíamos, e quanto maiores as semelhanças, maior a necessidade de nos distinguirmos: eu sou pobre, mas não como tu. Assim, uma legião de distintas personalidades desfila pelos telejornais assegurando-nos de que não somos a Grécia.
A Madeira veio perturbar aquela melopeia, como a querer despertar-nos para uma outra realidade. Mas não: logo a mesma gente nos veio assegurar que não, não somos a Grécia.
O governo assegurou-nos, hoje, de que não tenciona extinguir câmaras municipais, contrariando o que está no memorando. Ainda assim, as mesmas vozes dizem-nos que só a Grécia não cumpre memorandos.
A nossa dívida privada é maior do que a dos gregos. Mas também isso deve ser culpa da Grécia. Já estamos a ver.